quinta-feira, 27 de maio de 2010

ARTHUR

Há nove meses, nasceu meu sobrinho Arthur. Até então para mim foi a novidade mais emocionante dos últimos tempos. Meu primeiro sobrinho, filho da minha amada irmã mais velha Flávia. Ao pegar o Arthur no colo pela primeira vez me fez sentir um amor tão grande que eu fiquei pequena diante de tanto amor que transbordou sobre mim. Foi uma festa, todos estavam felizes e ansiosos para comemorar a chegada do mais novo membro da família.
E era Arthur pra lá e Arthur pra cá... Arthuzinho ali e chorinho aqui...
Passados três meses após o nascimento de meu sobrinho, minha querida irmã nos revelou que o Arthur era uma criança Down.
...
...

Foi um choque. Não tenho vergonha de dizer que fiquei um tempo, algumas noites sem dormir pensando nisto.
Na minha cabeça a palavra DOWN.
Todos os dias.
Até então eu sonhei, idealizei um Arthur.
Projetei nele meus sonhos. Imaginei que ele teria um temperamento igual ao da minha irmã ou do meu cunhado. Sonhei com ele passando férias na casa da Titia Silvia... E até eu preparando um bolo de chocolate enquanto ele brincasse de pega-pega no quintal.
A notícia DOWN zerou os meus sonhos, me colocou com a realidade na minha frente. O que pensar agora?
Dias se passaram e eu não tinha coragem de falar com a minha irmã. Porque eu não queria sentir o que eu estava sentindo... Era um mix de tristeza, raiva, compaixão. Queria estar bem e dizer a ela que nada importava e que eu estava feliz.
Naqueles dias passei refletindo sobre ser mãe, expectativas, coragem, preconceito. Por que isto aconteceu? Li diversos textos sobre o assunto, conversei com amigas que são mães. Pensei e pensei.
Numa noite eu tinha em minha mente a imagem fixa do Arthur. Aquele garotinho que me fez ter o sentimento mais puro que já senti. E me lembrei de sábias palavras de Krishnamurt. Ele diz que não devemos esperar nada de ninguém, sem expectativas. Há muitos anos eu li isto, e para mim era algo inatingível. Como não esperar nada? Como não ter expectativa? Sem sonho e fantasias?
Doeu. A realidade doeu. A vida sem ilusão, doeu. Porque é mais fácil imaginar e fugir das mazelas da vida. Então tive que apagar as imagens e minha mente e dar um novo início. Respirei fundo e então liguei para minha irmã. Conversamos horas sobre uma porção de coisas e no fim rimos e choramos de emoção, ela estava feliz. Muito feliz.
O Arthur veio para clarear, ele é luz que me fez ver aquilo que eu não queria ver. Por isso este texto é para ele.
Escrevi uma historinha onde imaginei um livrinho em homenagem a todas as crianças Down. Estou desenvolvendo as ilustrações em gravurinha de borracha e acho que até o fim de junho estará pronto.

Eis a história.


ARTHUR

Era uma vez uma menina magrinha
Que nem bambu, vareta, minhoca.

Era boa por natureza
Quietinha e estudiosa
Que nem uma corujinha.

Cresceu, virou mocinha e professora
Namorou, desistiu, chorou, insistiu
Que nem novela das oito.

Encontrou um grande amor
Fugiu! Foi ser feliz
Que nem nos contos de fada.

Quis ter nenem
Ficou grávida, de barrigão
Que nem uma melância.

Todos ficaram esperando
Que nem quando fica esperando um trem que nunca chega...

Então nasceu o Arthur
Nasceu. Simplesmente.
Que nem fruto doce, jabuticaba no pé.

Arthur nasceu com um brilho no olhar
Um jeito calmo
Que nem estrela no céu.

Uma estrela luminosa
Que tão brilhante
Iluminou meu coração
Que nem vela no apagão.

Ele abriu meus olhos com suas mãozinhas
Pequenino me ensinou
Que nem professor.

Uma lição pra toda vida
Que nem andar de bicicleta.

Arthur é assim
Uma estrelinha
Brilha!
Que nem vaga-lume na floresta.

FIM


5 comentários:

  1. ADOREI Silvia .... LINDO
    E como te disse aos poucos vcs vão ter a mais plena certeza e experiencia de pq "eles" são chamados de especiais e o quanto são generosos em nos deixar tmb nos sentirmos especiais quando estamos perto deles... medianos somos nós, eles sem duvidas são muito especiais... Almas especiais....

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  2. lindo Sil!!! fiquei emocionado....

    Fábio

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  3. A luz da sabedoria, é como um brilho de estrela,
    Sabemos que ele está lá, e as vezes os subestimamos.
    Olhar para cima, as vezes é tão importante quanto olhar para frente, porque podemos apreciar o que nos observa.
    A luz da lua, o poder do sol, a velocidade e as formas das nuvens, e o brilho das estrelas.
    A sabedoria, as vezes se mistura com vaidade, e não escolhemos as palavras certas para descrever o que sentimos.
    Nesse caso , sua sabedoria e amor, superaram a vaidade, e seu poder de olhar pra cima, cultivar o desconhecido, e enteder as razões da vida, fizeram com que evoluisse, e prosseguindo a frente vc triunfou.
    Parabéns pela sua beleza interior, olhe sempre para todos os lados , pois a explicação para tantos detalhes podem estar em lugares, pessoas e ocasiões diferente.
    Beijos.

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  4. Fernanda Clemente4 de junho de 2010 20:03

    Sil,

    Também sinto-me pequena diante das suas palavras de amor. É uma reflexão que nos faz pensar: Onde está a diferença? Não podemos reduzir os outros a nós mesmos! Imagine se todas as flores fossem iguais, se todas as nuvens tivessem a mesma forma, se todas as frutas tivessem o mesmo sabor...que mesmice! Crescemos, aprendemos e criamos os nossos valores dentro das diferenças!
    Fico encantada com o pequeno grande Arthur!!! Tão pequenino e com ele já trouxe tanta generosidade, pois não importa o julgamento que as pessoas façam, o sorriso no rosto esta esboçado, brilhando, encantando pessoas...
    É o amor borbulhando como bolhas de sabão!
    Orgulho-me de você!

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  5. Querida, não vemos a hora (acho que posso falar pelos que comentaram antes de mim) de ver esse lindo texto ilustrado com grande amor e dedicação!
    Parabéns e feliz do Arthur, que poderá dizer um dia que sua tia lhe fez a mais linda das homenagens.
    bj, Lu Menna

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